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  • Geografias feministas na América Latina:desafios epistemológicos e a decolonialidade de saberes1
  • Joseli Maria Silva and Marcio Jose Ornat

introdução

O texto analisa o crescimento dos estudos de gênero na América Latina, mesmo frente as resistências do campo científico e do avanço das políticas conservadoras no continente, além de traçar os desafios das pesquisas feministas em espaços colonizados. Para desenvolver o argumento a que nos propomos, tomamos por base as pesqsuisas já realizadas por pesquisadoras(es) feministas envolvendo os contextos do Brasil, México e Argentina como Veleda da Silva e Lan (2007), Silva e Vieira (2014), Silva, César e Pinto (2015), Colombara (2017), Lan (2016), Veleda da Silva (2016), Ibarra-García e Escamilla-Herrera (2016), Zaragocin-Carvajal, Moreano-Venegas e Álvarez-Velasco (2018) e Silva e Ornat (2019). O texto explora ainda os desafios que as geografias feministas latino-americanas enfrentam para constituir bases próprias em um mundo globalizado em que a geopolítica do conhecimento mundial da geografia está estruturada cada vez mais na centralização epistemológica do norte anglófono.

a américa-latina feminista e o crescimento dos estudos de gênero na ciência geográfica

É impossível reduzir a pluralidade dos movimentos feministas da América Latina em uma única narrativa de desenvolvimento. Há uma diversidade de elementos relacionados que constituem as especificidades espaço temporais de cada país desse imenso e variado continente. Contudo, Blay e Avelar (2019) consideram que as lutas políticas contra as ditaduras militares é um elemento comum entre vários países da região e que o envolvimento das mulheres nessa experiência é um importante ingrediente do movimento feminista latino-americano. A vivência feminina durante os períodos ditatoriais tornou mais claro os privilégios masculinos, mesmo dentro de partidos de esquerda e a necessidade de constituir organizações específicas que tratassem das relações de gênero e poder. A organização feminina foi marcante nos processos de democratização dos países latino-americanos, notadamente nos finais dos anos setenta e oitenta, trazendo para arena pública a reivindicação dos direitos sexuais, civis, políticos, econômicos e jurídicos. [End Page 163]

Apesar da longa história e pluralidade dos movimentos feministas, a visibilidade das manifestações de reivindicações femininas tem sido facilitada pela popularização do acesso à internet e mídias sociais. Multidões têm tomado o espaço público sem precedentes, reunindo mulheres de distintas classes, religião, cores, orientação sexual, condição marital e assim por diante. Nesses recentes episódios feministas há uma nova geração de mulheres, mas também de jovens homens que incorporaram a pauta de gênero e têm pensado na construção de estruturas de privilégio masculinas.

As chamadas 'ondas feministas' que vem ocupando os espaços públicos desde 2016, como as marchas contra o feminicídio (#NiUnaMenos) e a campanha para a legalização do aborto (!NiñasNoMadres) na Argentina, as manifestações contra assédio sexual nas universidades no Chile que paralisou trinta e cinco instituições educacionais no país e a marcha de mulheres brasileiras contra o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (#EleNão) evidenciam a quebra do silenciamento das reivindicações das mulheres. Os espaços públicos tomados por corpos femininos e ao mesmo tempo a utilização dos corpos femininos como espaços de luta têm constituído paisagens urbanas com as quais a ciência geográfica latino-americana passou a ter que negociar, notadamente com as gerações mais jovens.

O tradicional desprezo pela produção das geografias feministas produzidas há mais de quarenta anos e o silenciamento em torno dos privilégios de gênero nas abordagens espaciais por parte das correntes hegemônicas da geografia latino-americana acabou sendo impossível de ser mantido frente a explícita e material geograficidade das mulheres nesses últimos anos. O campo científico da geografia na América Latina foi paulatinamente sendo permeado pelas pesquisas de gênero e sexualidades, evidenciando crescimento acentuado em países como Brasil...

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Additional Information

ISSN
1548-5811
Print ISSN
1545-2476
Pages
pp. 163-171
Launched on MUSE
2019-12-21
Open Access
No
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