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Reviewed by:
  • O labirinto enunciativo em Memorial de Aires by Adriana da Costa Teles
  • Marta de Senna
Teles, Adriana da Costa . O labirinto enunciativo em Memorial de Aires. São Paulo: Annablume, 2009. 148 pp.

O livro de Adriana Costa Teles, publicado já há três anos, apresenta uma interessante leitura do Memorial de Aires, último romance de Machado de Assis. Chamando atenção para o fato de que o livro foi, durante muito tempo, mal lido pela crítica, que o viu como uma obra de redenção, com forte marca autobiográfica, a autora se inscreve numa outra linhagem crítica, inaugurada, salvo engano, na década de 1970. Refiro-me a um texto de Alfredo Bosi, que assina a apresentação do romance na edição da Ática, de 1976, posteriormente desenvolvido no capítulo "Uma figura machadiana," de O enigma do olhar (São Paulo: Ática, 2000); ao ensaio de José Paulo Paes "Um aprendiz de morto," publicado na Revista de Cultura Vozes em 1976 e depois em livro (Gregos e baianos. São Paulo: Brasiliense, 1985); ao artigo de John Gledson "The last betrayal of Machado de Assis: Memorial de Aires," publicado no número 1 de Portuguese Studies (1985), 121-150, depois incluído, com o título de "Memorial de Aires," em Ficção e história (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 196. 215-255); e, mais recentemente, a provocante interpretação desse livro empreendida por Pedro Meira Monteiro em: "Oui, mais, il faut parier: fidelidade e dúvida no Memorial de Aires," Estudos Avançados 22 (64), 2008. Como eles, Adriana Teles lê no Memorial uma narrativa oblíqua e dissimulada, em que o conselheiro vai tecendo as suas considerações sobre as personagens com quem convive em sua volta para o Brasil, já aposentado, e através das quais deita também um olhar à sociedade fluminense em torno da Abolição e da Proclamação da República.

A contribuição do livro de Adriana Costa Teles não está, portanto, no fato de a autora ler no último romance de Machado de Assis a mesma ironia, o mesmo pessimismo, a mesma denúncia de seus romances e contos da maturidade, do qual este se distanciaria pela particularidade de que nele o ato da enunciação é relativamente próximo à diegese dos fatos. O que oferece de novo esta análise [End Page 273] é a tentativa de demonstrar como é na enunciação do discurso de Aires que se constrói a ambiguidade; como é na linguagem, na armação retórica que reside a possibilidade do duplo sentido; como é na recorrente modalização das afirmações ("talvez," "pode ser," "parece") que se abre uma fissura, que o leitor atento será capaz de perceber e preencher de sentido. Para habilitar-se a isso, esse leitor não pode deixar-se cair na armadilha que se estabelece no paratexto de abertura. Nele, "Machado 'desliteratiza' a obra, uma vez que a apresenta como documento real. [. . .] No momento em que Machado nos diz que Aires é o sujeito daquele discurso [. . .] passamos a aceitar esse fato como verdadeiro e a nos comportar como se estivéssemos lendo seu discurso e não o construído por Machado" (20). Ou seja: estaremos nos comportando como os críticos que se deixaram enganar pelo Bruxo, insensíveis para perceber a obra como dotada de autonomia estética, e corremos o risco de perder o melhor da festa.

É preciso ler o Memorial de Aires, alerta-nos Adriana da Costa Teles, como a obra de um autor que tem verdadeira "obsessão pela escrita - espaço a ser ocupado por um exercício complexo e minucioso do discurso narrativo" (89), em que se configura uma "astúcia da enunciação." De fato, é na astúcia da enunciação de Aires (para usar uma feliz expressão de Adriana) que se tece a rede do não dito, é ali que se abre o espaço para a leitura das demais personagens para além da aparência, para além da dissimulação. Recorrendo à lição de Alfredo Bosi, a autora nos indica que é também por aí que a denúncia do...

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Additional Information

ISSN
1548-9957
Print ISSN
0024-7413
Pages
pp. 273-275
Launched on MUSE
2013-10-29
Open Access
No
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