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Reviewed by:
  • Ora (direis) puxar conversa!
  • Alessandra Santos
Santiago, Silviano. Ora (direis) puxar conversa! Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. 381 pp.

Em inglês, é lugar-comum dizer que não se deve julgar um livro pela capa. No entanto, em alguns casos, a capa pode revelar quase tanto sobre o livro quanto uma leitura atenciosa. Este é o caso da mais recente coletânea de ensaios de Silviano Santiago, Ora (direis) puxar conversa!. A imagem da capa mostra um detalhe do projeto de arte de Hélio Oiticica, "Parangolé Capa 30 no metrô de Nova York, 1972," e faz referência a um dos ensaios do livro, "É proibido proibir." A obra de Oiticica trata extensivamente sobre a experiência, a comunidade e o conceito da convivência, ou o que Santiago chama de "o vivido" (Em liberdade, Rio de Janeiro: Paz e terra, 1981, 217). Não só sua arte conceitual aborda as tendências múltiplas da contemporaneidade e a preocupação social, mas também [End Page 218] a prática do cotidiano. O conceito de Oticica se encaixa perfeitamente com as preocupações principais deste volume. A imagem mostra alguém usando um "parangolé," uma escultura que pode ser vestida, destacando o aspecto da importância da participação na arte. Além disso, foi fotografado em Nova Iorque, o que também é representativo do livro de Santiago. O teor da experiência aqui não se define somente como brasileira, mas se internacionaliza e se insere no cosmopolitismo mundial. No texto em questão, Santiago discute a arte de Oiticica como além da representação (leia-se em favor da participação) e além de interpretações fáceis e rótulos. Assim são os ensaios de Santiago: resistem articulações superficiais por serem complexos em sua manifestação analítica, porém poética, e pelo fato de observarem a literatura e a arte como processos e diálogos que se dão através da experiência e percepções simultâneas.

Além do ensaio sobre Oiticica, o livro apresenta uma série de vinte textos críticos sobre autores brasileiros (Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Monteiro Lobato, Lygia Fagundes Telles, Guimarães Rosa, José de Alencar, Arnaldo Antunes, Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz e Sérgio Milliet, entre outros), e sobre autores estrangeiros (Camões, Marx, Engels, Lévi-Strauss, Althusser, Derrida, Kafk a, Faulkner, Manuel Puig, Elizabeth Bishop, Nabokov, Poe, Lewis Carroll e Habermas.

Apesar de ser reconhecido como um grande estudioso da pósmodernidade e apesar da variedade de autores e épocas presentes nestes ensaios, este volume solidifica Santiago como um conhecedor do Modernismo e da vanguarda. Em seu lirismo crítico, Santiago faz referências abertas a Baudelaire e Benjamin, e referências estilísticas à qualidade do flâneur que passeia pela vida retratando o dia-a-dia literário. Acima de tudo, os ensaios apresentam momentos íntimos da literatura dentro de um contexto panorâmico da modernidade. O resultado é uma etnografia da escritura onde a habilidade de comunicação (ou de mal-entendidos) de cartas e textos fica evidente. Desde o princípio, no ensaio de abertura, "Convite à leitura dos poemas de Carlos Drummond de Andrade," aprendemos sobre um Drummond que transmite sua "experiência de vida pelo poema" (11) e pela "presença viva do poeta" (13). Vários dos ensaios analisam cartas, incluindo "Suas cartas, nossa cartas" sobre a correspondência entre Mário de Andrade e Drummond, onde a relação leitor e autor se confundem, assim como a noção de vida pública e privada. Aqui as cartas se abrem ao leitor como um quebra-cabeça (77), desafiando noções de recepção de textos que não foram escritos para serem compartilhados com o mundo. O ensaio que dá título ao livro justamente discute a vida pública de Mário de Andrade e sua sede pela igualdade e desejo por uma comunicação democrática (98). Santiago aqui ressuscita o cotidiano modernista e confirma a importância da interação para o artista, cuja arte acima de tudo comunica. [End...

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Additional Information

ISSN
1548-9957
Print ISSN
0024-7413
Pages
pp. 218-220
Launched on MUSE
2011-01-30
Open Access
No
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