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A Master on the Periphery of Capitalism Duke University Press, 2001 By Roberto Schwartz. Translated by John Gledson

Machado de Assis é considerado um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XIX. Sua obra tem sido alvo de constantes estudos ao longo do tempo. O livro de Roberto Schwartz A Master on the Periphery of Capitalism em sua segunda edição para o inglês por John Gledson, não foge à regra. Conforme John Gledson coloca na introdução para a edição em inglês "este é um grande livro sobre um grande autor."

Tomando como base Memórias Póstumas de Brás Cubas, Roberto Schwartz analisa, sob a ótica marxista, como, em sua obra, Machado de Assis lançou mão de uma "volubilidade narrativa" para desvelar e desnudar as relações de classe no Brasil do século XIX. O livro de Schwartz é composto de dez capítulos através dos quais o crítico traça um painel minuncioso sobre as relações de Brás Cubas, protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, com a sociedade da época. Schwartz analisa como o "defunto-autor" narra as suas próprias memórias.

O primeiro capítulo de A Master on the Periphery of Capitalism destaca o caráter ambígüo das declarações e das considerações lógicas feitas por Brás Cubas aportando a verdadeira razão que leva o narrador a reflexões paradoxais que se alternan entre o escárnio e a seriedade. Essa ambigüidade narrativa, conforme coloca Roberto Schwartz, procura estabelecer entre o leitor e o narrador uma relação de cumplicidade, uma vez que ambos percebem a inadequação de Brás Cubas e se calam frente aos abusos por ele cometidos.

O segundo capítulo analisa a facilidade do narrador em circular entre os diversos estilos narrativos. Nessa "Babel- literária," segundo Schwartz, o narrador- personagem se impõe através de uma erudição que lhe permite criticar o mundo pequeno burguês do Rio de Janeiro do século XIX. Essa erudição ajuda o narrador a se firmar como detentor de um conhecimento que o coloca em uma situação privilegiada frente ao leitor.

Em "The Practical Matrix," o autor dá destaque à presença da matriz européia na sociedade carioca da época, examinada de maneira crítica na obra machadiana. Os capítulos quatro e cinco se voltam para a apreciação dos momentos cômicos em Memórias Póstumas de Brás Cubas, nos quais o narrador- personagem faz troça da sua impunidade. Schwartz analisa também a forma jocosa utilizada por Machado de Assis para falar sobre a vida de Brás Cubas, na realidade uma metonímia para os componentes da classe dominante do Rio de Janeiro da sua época. [End Page 307]

Os capítulos seis e sete se concentram respectivamente nas personagens ricas e pobres em Memórias Póstumas de Brás Cubas. As relações entre Brás Cubas e o cunhado Cotrim são o pano de fundo para a discussão sobre a consciência moral que permea as elites do Brasil. Roberto Schwartz mostra como Machado de Assis, através do adultério de Virgília e da desonestidade de Cotrim, critica a volubilidade de valores e a prática do clientelismo que sempre foram usados para acomodar situações conflitantes. Os pobres são analisados através das personagens de Eugênia, Nhá-Loló e dona Plácida. Para Machado de Assis, elas personificam a classe que, desprendida dos bens materiais e da referência européia, se encontra numa espécie de limbo social, à margem da sociedade.

A Master on the Periphery of Capitalism redime Machado de Assis no que se refere às acusações sobre a indiferença do escritor à escravidão.Segundo Roberto Schwartz, Machado de Assis tratou a escravidão de uma forma crítica e irônica. Na obra estudada, os escravos aparecem como delatores dos "aspectos nefastos da classe dominante."

Nos últimos capítulos da primeira parte, "The Role of Ideas" e a "Questions of Form," Roberto Schwartz argumenta que a ironia do narrador ao falar sobre as teorias científicas da sua época é, na realidade, uma crítica à ignorância e ao pedantismo da classe dominante. Atendo-se à maneira peculiar do narrador se intrometer na narrativa, Schwartz conclui que essa despretenciosa intromissão serve para estabelecer um diálogo de cumplicidade com o leitor e, assim, ratificar a iniqüidade do país.

Na segunda parte, "Literary Accumulation in a Peripheral Country," o autor tece comentários analíticos a cerca das transições por que passaram os narradores na obra machadiana. De acordo com Schwartz, nos romances da primeira fase, os narradores machadianos se apresentavam constrangidos e obedientes devido a sua posição de subalternidade. Na fase seguinte, no entanto, surge um narrador "cujo ingrediente de contravenção sistemática reproduz um dado estrutural da situação de nossa elite."

Não se pode negar que A Master on the Periphery of Capitalism é um marco na literatura crítica da obra de Machado de Assis. No entanto, devido a sua preocupação em analisar o texto machadiano à luz do marxismo, o autor, muitas vezes, perde a oportunidade de estudar mais profundamente as figuras femininas, por exemplo, que são relegadas a alguns comentários superficiais, sempre atados à questão de classe.

Por tudo isso, a re-edição de A Master on the Periphery of Capitalism se faz importante a fim de que críticos e leitores de língua inglesa possam ter acesso a uma análise crítica e social da obra machadiana e, consequentemente, perceber como Machado de Assis fez uso da literatura para examinar as dinâmicas sociais que caracterizaram as elites brasileiras divididas entre o conservadorismo e a ânsia por modernidade. Como se pode ver, o livro de Robertos Schwartz é leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pelo Brasil.

Selene de Souza Dias Moreno
The University of Arizona

Additional Information

ISSN
1934-9009
Print ISSN
1096-2492
Launched on MUSE
2007-05-09
Open Access
No
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