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O Cancionero Popular Tradicional do Norte de Portugal e da Galiza

From: Romance Notes
Volume 52, Number 3, 2012
pp. 341-351 | 10.1353/rmc.2012.0032

In lieu of an abstract, here is a brief excerpt of the content:

Os cancioneiros líricos do Norte de Portugal e da Galiza são, em larga medida, um cancioneiro comum. Esta afirmação não nega a especifici-dade do cancioneiro de cada país ou de cada região. Há características que individualizam cada um dos cancioneiros, mas também há semelhanças evidentes, tanto na forma como no conteúdo. A proximidade geográfica, as relações de diverso tipo e a separação política, linguística e cultural entre Portugal e a Galiza desencadearam encontros e desencontros que criaram um cancioneiro a que poderemos chamar, evocando a escola trovadoresca medieval, galego-português.

Partindo destes pressupostos histórico-culturais, procuraremos comparar as principais linhas estruturais e formais dos cancioneiros do Norte de Portugal e da Galiza. Ao compararmos poemas que circulam ou circularam nesta área geocultural, estaremos em parte a reflectir sobre o modo como o cancioneiro funciona e em parte a equacionar as visões do mundo das comunidades que criam os textos e, ao mesmo tempo, são moldadas por eles.

Vários estudiosos, como Teófilo Braga, Adolfo Coelho, José Leite de Vasconcelos, Fernando de Castro Pires de Lima ou Fermín Bouza-Brey, aproximaram já os cancioneiros da tradição oral galega e do Norte de Portugal. Mais recentemente, no artigo “Sobre a tradición comun do cancioneiro popular moderno de Galícia e do Norte de Portugal” (1996), Domingo Blanco acrescentou elementos importantes à perspectiva comparativa de trabalhos que, no seu conjunto, identificam mais de cem quadras galegas e portuguesas em que são evidentes afinidades temáticas, semânticas e lexicais, mas também diferenças às vezes subtis e profundas.

Partiremos dessas contribuições e desses quadros de variantes, e, na medida do possível, procuraremos confrontar versões de um mesmo texto arquetípico. As variantes garantem a vitalidade do cancioneiro popular, a sua actualização e adaptação ao momento e ao meio. A comutação, própria do sistema de variantes de qualquer género da literatura oral, é mais intensa na passagem do texto a outra língua e a outra cultura. Compreende-se: a variação, cujas principais particularidades veremos mais à frente numa tentativa de tipologia de variantes, obedece a condicionamentos de ordem geográfica, social e cultural. Na adaptação ou recriação de uma quadra, mas também noutras formas do cancioneiro, entram factores éticos, estéticos e linguísticos que são tão importantes quanto a memória intertextual, que tende a conservar a identidade do texto mais antigo (o que não obsta a que, muitas vezes, o intérprete-autor não possa realizar uma transformação conscientemente criativa).

A natureza provisória da quadra oral, constantemente reformulada e actualizada, inviabiliza quase sempre a determinação exacta do primeiro texto. Antes de se operar o processo de diferenciação, há uma quadra inaugural, autoral, que poderá fecundar um número indeterminado e teoricamente ilimitado de textos. A volubilidade da transmissão oral conduz a uma cadeia de variantes cuja graduação não é possível fixar.

Notamos esta evidência porque queremos deixar bem claro que este não é um trabalho de arqueologia textual. Não vamos definir a genealogia de quadras pertencentes aos cancioneiros galego e português (e, muitas vezes, não só), nem propor a anterioridade de umas versões em relação a outras. No cancioneiro, a transformação constante de uma quadra faz com que a reconstrução do texto original seja praticamente sempre hipotética e, mesmo, ilusória. Impõe-se-nos aqui a sugestiva imagem do palimpsesto, patente em várias reflexões sobre a intertextualidade, ligada à possibilidade de descobrirmos, subjacentes a um certo texto, inscrições anteriores já desbotadas mas ainda reconhecíveis.

Interessa-nos antes ver como é que, no essencial, uma quadra vive e se transforma em versões, indiferente tanto a questões de teoria do texto ou da cultura (paraliteratura, literatura ou cultura popular) como a divisões geográficas e políticas. A quadra do Noroeste da Península Ibérica mantém, hoje como ontem, a sua vocação nómada, a sua identidade de...



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