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“Deponho que não sei”: O problema do saber em Grande Sertão: Veredas
In lieu of an abstract, here is a brief excerpt of the content:

Este trabalho começa uma tentativa de estudar questões epistemológicas levantadas pela leitura de Grande Sertão: Veredas. Parte da premissa de que entre as várias questões filosóficas tratadas pelo romance rosiano, o problema epistemológico revela-se central. Esta centralidade é entendida aqui não somente no sentido temático mas também em relação a seu efeito literário. Ou seja, a preocupação epistemológica que se encontra em Grande Sertão: Veredas não é simplesmente central em relação às outras preocupações filosóficas ali encontradas, mas também no processo de engajamento do leitor desenvolvido pelo texto em sua totalidade. O objetivo será, portanto, esclarecer a contribuição da contemplação do problema filosófico para a literatura e também a contribuição do tratamento literário para a filosofia. Assim, pretendo ampliar um pouco o campo da discussão da obra rosiana e propor uma leitura de Grande Sertão: Veredas que evita alguns dos problemas de que sofrem certas leituras filosóficas.

1. Filosofia e Estudos Rosianos: O Encontro Reconsiderado

Para situar este trabalho em relação a outros estudos de Guimarães Rosa que se interessam por questões filosóficas, aproveito este espaço para falar do que, ao meu ver, está faltando na discussão atual. Desde a antiguidade, a filosofia se divide em cinco áreas de investigação: metafísica, epistemologia, ética, estética, e lógica. Deixemos de lado a lógica por ser a área que menos claramente se relaciona com a literatura.

Obviamente, os estudos que focalizam a forma e poética rosianas abordam a dimensão estética da obra. Poderíamos até dizer que qualquer estudo que trata da obra literária trabalha a dimensão estética, quer direta, quer indiretamente.

Além disso, não gerará polêmicas dizer que o aspecto metafísico da obra rosiana já vem discutido. Os estudos metafísicos de Guimarães Rosa vêm sob diversos signos: psicanálise, misticismo, teologia, etc. No fundo, esses estudos tratam das seguintes perguntas, entre outras parecidas, que são as perguntas paradigmáticas da metafísica: o que existe? O que é um sujeito? Um agente? Quais as relações entre sujeitos? Entre agentes? Qual a relação entre causa e efeito? O que é o divino? Qual a relação entre o ser humano e a divindade? Vemos, então, que muitas das abordagens universalistas se mostram ligadas ao campo metafísico.

Ao lado dessa linha de leituras temos a de estudos que se preocupam mais claramente com o lado moral. Aqui encontramos o trabalho dos que se interessam pelo conceito de nação e de quem trabalha com questões sociais como, por exemplo, a desigualdade, em suas mais diversas formas. Obviamente, no primeiro caso, a leitura aborda a ética através da face política da teoria moral, enquanto no segundo, a aborda através do conceito de justiça.

E a epistemologia? Até agora a teoria do saber parece não ter se apresentado como um problema independente e merecedor de investigação profunda na obra de Guimarães Rosa. Do ponto de vista filosófico, entretanto, como a obra rosiana trata de uma variedade de assuntos associados à investigação filosófica, seria justificável dirigir nossa atenção para a maneira em que trata do saber, mesmo se Grande Sertão: Veredas não o exigisse.

Como dito anteriormente, pretendo evitar certos problemas que surgem para as abordagens filosóficas dos estudos literários. Quero agora explicar essa afirmação e, assim, esclarecer a abordagem proposta aqui. Vejo dois problemas principais que espero evitar nesta discussão. Primeiro, por razões que apresentarei em mais detalhe mais adiante, acho difícil se não impossível estudar questões metafísicas ou éticas (até, talvez, estéticas) em Grande Sertão: Veredas sem enfrentar, ou pelo menos levar a sério, seu desafio epistêmico. Para falar de metafísica ou ética em uma narrativa marcada por dúvidas, incertezas, e conflitos parece essencial pensar nestas questões através e não apesar do problema do saber.

A...


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