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Há décadas escrever ficção para mim é um exercício como o de quem diariamente precisa exercitar o corpo ou o dos religiosos que rezam todos os dias. Raramente faço distinção entre momentos em que estou escrevendo um livro e que não estou. O pequeno exercício diário está sempre presente, em movimento, resultando em mais ou menos páginas escritas ou apenas reescritas. Assim, quando um livro é concluído, projetos de outros são concebidos ou retomados e, na medida em que um deles se desenvolve mais, é a este que dedico minhas horas diárias de escrita.

Até hoje sempre me atraíram mais os relatos longos, ou seja, os romances. Lanço-me neles como numa corrida de longa distância, ou melhor, como numa peregrinação a algum lugar misterioso cuja distância desconheço, ou ainda a um périplo que me levará a novas aventuras. Gosto de partir não apenas com algumas frases na bagagem, mas também com uma vaga noção do conjunto, uma estrutura ou um esquema apenas pensados e ainda não escritos. Mas à medida que as frases vão se juntando umas às outras, essa noção de conjunto, essa estrutura, esse esquema, sejam eles formadores de histórias ou não, vão se modificando a tal ponto que, quando chego ao final, muitas vezes já não reconheço os elementos que inspiraram minha partida.

Uma vez concluída uma primeira versão - bruta, descosida, cheia de materiais coletados pelo meio do caminho -, começo as revisões. No meu caso são muitas e, portanto, reescrever é muito mais demorado do que escrever. O livro é reescrito do começo ao final tantas vezes que a última versão pode ser radicalmente distinta da primeira. Nesse processo de reescrita, posso refazer as histórias e fundir ou dividir personagens.

O que mais me atrai na elaboração de um texto literário é a criação de personagens muito diferentes uns dos outros, aos quais tenho de dar vida, colocando uns em confronto com outros, explorando suas contradições, seus amores, ódios, desavenças, sua esperança e desespero - personagens que não sejam apenas isso ou aquilo, que evoluam e surpreendam sem deixar de ser o que são; que tenham sentimentos complexos e possam, por exemplo, [End Page 1] ter alegrias em meio à dor, misturem o bem e o mal e possam despertar ódio e amor. Não tento transpor para a ficção personagens de carne e osso, mas, ao contrário, procuro fazer com que personagens imaginários, inventados, construídos a partir de pessoas que conheço ou de histórias ouvidas ou lidas, sejam verossímeis.

No início os personagens me pertencem. Dou o pontapé inicial. Mas depois que eles já têm suas biografias, que se envolvem em determinadas situações, devo obedecer a suas próprias evoluções, a suas dinâmicas nas relações de uns com os outros e com o mundo que os rodeia. Não quero que sejam portadores de uma clara e inequívoca mensagem minha. Ao por lado a lado personagens radicalmente distintos e explorando-os em sua complexidade, procuro evitar as visões unidimensionais e realçar as ambiguidades, incoerências e perspectivas conflitantes. Os desafios e impasses, em vez de serem percebidos através das conclusões do narrador, devem vir da situação mesma dos personagens e de sua evolução na história.

Alguns desses personagens têm uma relação direta comigo na medida em que sinto compaixão por eles. Para transmitir fielmente suas emoções, vivo outros de mim mesmo e muitas vezes vivo a própria dor alheia. Mas consideraria pobre minha literatura se viesse a se basear exclusivamente na minha experiência. Por isso, para compor esses personagens, recorro, como um colecionador, a tudo o que está a meu alcance: ao que me lembro, a histórias que me contam, ao que entendo dos sentimentos alheios, ao que vejo no cinema e sobretudo ao que leio.

Eles se revelam atrav...

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Additional Information

ISSN
1548-9957
Print ISSN
0024-7413
Pages
pp. 1-4
Launched on MUSE
2013-02-27
Open Access
N
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