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O “JEITO” BRASILEIRO: UM FENÔMENO CULTURAL CARLOS TRIGUEIRO 1. DAS ORIGENS CRIATIVAS DO “JEITO” “DESERTORES dos exércitos castelhanos havendo alcançado o oeste da península ibérica, e percebendo que estavam encurralados entre o oceano e as tropas feudais no seu encalce, combinaram falar entre si num castelhano modificado, pressupondo que seus perseguidores os tomariam por habitantes do lugar. O estratagema logrou êxito, mas a demora das tropas perseguidoras na região, aproveitando o clima ensolarado e os excelentes vinhos locais, obrigou os fugitivos a continuar falando do tal modo diferente. Porém, os astutos desertores não perceberam que com o passar do tempo se habituaram a falar do novo ‘Jeito’ e esqueceram o castelhano.” Não obstante a farsa desta antiga anedota, pois a verdade histórica sobre as origens da “última flor do Lácio” é bem outra, tudo leva a crer que o “Jeito” concebido como expediente sagaz e astucioso precedeu o idioma português. 2. DOS SIGNIFICADOS SEMÂNTICOS DO “JEITO” A ferramenta de pesquisa eletrônica Google registra em torno de 21.000.000 referências para o verbete e significante “Jeito”, cujo étimo é o vocábulo latino jactu, com extensa gama de significados, tais como: lançar, arremessar, mover, perseguir, dizer, proferir, abalar, atacar, mostrar -se, gabar-se, e outros. No sentido contemporâneo, “Jeito” significa modo, maneira, aspecto, feitio, feição, caráter, índole, disposição do espírito, propensão, pendor, habilidade, capacidade, arte, e está presente numa infindável lista de acepções ao formar expressões junto a adjeti217 vos, pronomes, preposições, verbos e advérbios. Exemplo: ao jeito de, com jeito, sem jeito, dar um jeito, fazer jeito, levar jeito para, desculpar o mau jeito, ser de jeito, não ter jeito. Tão extensa e maleável é a utiliza- ção do vocábulo “Jeito” que seria praticamente impossível suprimi-lo do dia-a-dia brasileiro. 3. DOS SIGNIFICADOS CULTURAIS DO “JEITO” NO BRASIL Historiadores, filólogos, antropólogos, sociólogos, teólogos e outros estudiosos do comportamento social e ético têm abordado as várias conotações implícitas nos significados do significante “Jeito”. Sem consenso metodológico, depreende-se que os significados do “Jeito” vão além da semântica. Assim, o “Jeito” constituiria fenômeno cultural, um ânimo latente ou índole dissimulada no caráter do povo brasileiro. E teria conotações positivas e negativas, ou seja, tanto poderia estimular quanto inibir comportamentos psicossociais. Nessa hipotética moldura cultural, o “Jeito” seria um modo hábil e criativo de resolver situações difíceis de qualquer natureza, lícitas ou não, nos diversos contextos da vida em sociedade. 4. DAS OPINIÕES DE ESTUDIOSOS SOBRE O “JEITO” Opiniões substanciadas sobre o “Jeito” no comportamento psicossocial brasileiro aparecem com freqüência na segunda metade do Século XX. Segundo Lourenço Stélio Rega, licenciado em Filosofia e mestre em Teologia e Ética, o “Jeito” é um fenômeno cultural que controla o comportamento , decisões e escolhas diárias dos brasileiros (18). Para a antropóloga Lívia Barbosa, o “Jeito” é uma solução especial e criativa para resolver uma emergência, seja burlando regras e normas, ou sob forma de conciliação, esperteza, ou habilidade (32). Já o antropólogo e historiador, João Camilo de Oliveira Tôrres refere-se ao “Jeito” como fenômeno cultural positivo e característico da vivacidade e flexibilidade do brasileiro (214). Também o antropólogo Roberto Da Matta, mostra o “Jeito” como uma das características da cultura brasileira, um modo de navegação social, de sobrevivência diante de situações sociais e legais (87,95-8). Por outro lado, a professora Júlia Falivene Alves vê o “Jeito” 218 ROMANCE NOTES como uma caricatura da cultura brasileira (135). E o frade franciscano, Bernardino Leers, sacramenta: “o jeito é a práxis do povo” (51). 5. DAS ORIGENS CULTURAIS DO “JEITO” NO BRASIL Juntando as condições sociais do colonizador que se aventurava alémmar – desprovido de vínculos, família, planejamento e padrões – ao extraordinário processo de miscigenação que ocorreu na terra descoberta entre brancos...

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Additional Information

ISSN
2165-7599
Print ISSN
0035-7995
Pages
pp. 217-227
Launched on MUSE
2012-10-03
Open Access
No
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